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Selic em 14,25%: por que o corte de juros não decide o seu próximo lançamento

O Copom cortou os juros pela terceira vez seguida, mas a conta de um empreendimento não muda com a manchete. Muda com a TMA que você de fato usa.

Julio Pagnussat
Julio Pagnussat
Equipe Gestinc
Selic em 14,25%: por que o corte de juros não decide o seu próximo lançamento

No dia 17 de junho, o Copom cortou a Selic para 14,25% ao ano. Foi a terceira queda seguida, e a manchete que rodou em todo lugar foi mais ou menos a mesma: "juros caindo, o mercado vai destravar".

Passei oito anos fazendo estudo de viabilidade de incorporação antes de construir software pra isso, e aprendi a ler esse tipo de notícia com desconfiança. Não porque o corte não seja real. É real. Mas porque a conta de um empreendimento não muda com a manchete. Ela muda com os números que você de fato coloca no modelo na hora de decidir.

Vale separar o que a notícia diz do que ela faz com o seu projeto.

O corte é real, mas o juro ainda é alto

A Selic saiu de 15% ao ano, onde ficou de meados de 2025 até março, e desceu em três passos: 14,75%, 14,50% e agora 14,25%. O mercado, pelo Boletim Focus, projeta a taxa terminando 2026 em algo entre 12,5% e 13,5%, com o IPCA ainda acima do teto da meta, rodando perto de 5%.

Traduzindo: o crédito ficou um pouco menos caro, não barato. E o efeito de um corte de 0,25 ponto leva meses pra aparecer na ponta, no financiamento de quem compra e no custo de quem produz.

Não à toa o mercado está operando em dois ritmos. O segmento econômico, puxado pelo Minha Casa Minha Vida, segue aquecido. O médio e o alto padrão, que dependem mais de financiamento, sentiram. Em São Paulo, os lançamentos recuaram cerca de 5% no primeiro trimestre, e quase todo esse recuo veio justamente do médio e alto padrão.

Onde o juro realmente entra no seu projeto

Aqui está a parte que poucos param pra olhar: o corte da Selic não muda a decisão de seguir ou parar com um terreno. Quem muda o VPL do projeto é a TMA, a taxa que você usa pra trazer o fluxo a valor presente.

E é aí que mora o problema. A maioria define a TMA no olho, ancora num número que pareceu razoável seis meses atrás, e deixa parado. Enquanto isso, a curva de CDI, IPCA e INCC se mexeu várias vezes. Se a sua taxa de desconto está congelada num cenário que já passou, o seu VPL está errado nas duas direções: ou você está reprovando terreno bom, ou aprovando terreno que não fecha.

Revisar a TMA contra o benchmark atual não é detalhe. É a primeira coisa que muda de valor quando o Copom mexe na taxa.

O custo come o alívio

Tem outro lado da conta que a manchete de juros nunca menciona. Os dois maiores alertas do setor pra 2026 são a volatilidade no custo dos materiais e a falta de mão de obra. Ou seja, o pequeno alívio que a queda de juros devolve pra margem pode ser engolido inteiro por uma surpresa no INCC ou no orçamento de obra.

Por isso eu nunca confiei num cenário base sozinho. Um projeto que fecha bonito na premissa central e desmancha quando o custo sobe 8% não é um projeto viável. É um projeto que ainda não foi testado. Rodar o resultado contra variação de VGV, de custo e de velocidade de vendas mostra se a margem é real ou se é sorte.

Mercado de dois ritmos pede premissa de dois ritmos

Se o econômico e o alto padrão estão andando em velocidades diferentes, não dá pra copiar a mesma premissa de um pro outro. Velocidade de venda, ticket, ritmo de absorção: tudo muda. E tem uma tendência clara puxando isso, a procura por unidades mais compactas, que mexe direto no seu VGV por metro quadrado e no tempo que você leva pra vender o estoque.

Premissa de absorção herdada de um lançamento de três anos atrás, num produto diferente, é uma das formas mais comuns de um estudo parecer sólido e estar furado.

O funding mudou de lugar

Por baixo de tudo isso, a forma de financiar incorporação está se reorganizando. O SBPE, via poupança, segue criterioso, e o direcionamento da poupança pro crédito imobiliário sobe de 65% pra 100% até 2027. Ao mesmo tempo, o mercado de capitais, com CRI, LCI e fundos imobiliários, ganhou espaço como fonte de funding.

Isso não é só assunto de mesa de tesouraria. Se a sua fonte de capital muda, o custo desse capital e o perfil de exposição de caixa do projeto mudam junto. E exposição máxima de caixa e payback são exatamente os indicadores que decidem se você consegue tocar o empreendimento sem rasgar o caixa no meio da obra.

A manchete dá a direção, não a decisão

A queda da Selic diz pra onde o vento está soprando. Ela não diz se este terreno, neste preço, com esta curva de custo e esta velocidade de venda, ainda fecha. Isso não é leitura de manchete, é refazer a conta.

Foi mais ou menos por isso que eu parei de tratar viabilidade como uma planilha que se atualiza uma vez por trimestre e passei a refazer o cenário toda vez que a curva se mexe. Quando o Copom corta juros, a pergunta certa não é "será que agora vai", e sim "o que isso muda, em número, no projeto que está na minha mesa hoje?".

Quando foi a última vez que você revisou a TMA de um lançamento depois que o Banco Central mexeu na Selic?

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